articles · 2026-09-13 · 5 min read
O que o atrito fazia
Semana passada eu terminei um dia de trabalho e percebi que não tinha brigado com nada.
Tinha entregue. Um serviço novo, integração com fila, testes passando, deploy feito. Se alguém olhasse o commit ia dizer que foi um dia produtivo. Mas eu fechei o notebook com uma sensação estranha, parecida com a de sair de um restaurante sem lembrar do gosto da comida. Eu tinha descrito o que queria, revisado o que veio, ajustado uma ou outra coisa, descrito de novo. Em nenhum momento eu fiquei preso. Em nenhum momento eu não soube o que fazer. Apenas "estive" ali.
Eu tenho 24 anos e passo boa parte do dia avaliando código escrito por modelos de linguagem. É o meu trabalho olhar para o que a máquina produz e dizer se está bom. Então não vem de mim nenhuma nostalgia ingênua contra a tecnologia. Eu gosto dela, eu construo com ela, eu ganho dinheiro com ela. O que eu quero registrar é outra coisa, mais difícil de admitir: eu sinto falta de sentir tédio.
Não do tédio em si. Ninguém gosta de ficar três horas num bug. O que eu sinto falta é do que acontecia dentro dessas três horas.
Quando você ficava preso num problema, o tempo entre querer a resposta e ter a resposta não era vazio. Era nesse intervalo que você montava, sem perceber, um modelo do sistema na cabeça. Você testava uma hipótese, ela falhava, você ficava irritado, colocova uma música no spotify e ia tomar um café, voltava, testava outra... A solução muitas vezes chegava no chuveiro, ou no ônibus, ou às duas da manhã quando você já tinha desistido e estava jogando Minecraft. Ela chegava porque a cabeça tinha ficado mastigando aquilo o dia inteiro. O tédio era o preço, mas o produto não era a linha de código que resolvia o bug. O produto era você entender o sistema de um jeito que ninguém conseguiria te explicar.
O prompt elimina o intervalo. Você descreve, a resposta vem, você segue. Ganha a resposta e perde o caminho. E o caminho era onde a gente aprendia.
Eu percebo isso quando reviso o código de outras pessoas, e quando reviso o meu. Está cada vez mais comum encontrar sistemas que funcionam e que ninguém entende de verdade. Não porque sejam complexos demais, mas porque ninguém precisou entender para construí-los. A compreensão era um efeito colateral do esforço, e o esforço foi removido. Ficou o sistema, sem ninguém dentro dele.
Isso não é um problema só de programação. É um padrão.
Colocar um disco de vinil dava trabalho. Você tirava da capa, limpava, posicionava a agulha, e depois disso não dava para pular faixa com o polegar. Você ouvia o lado inteiro, inclusive as músicas que não gostava, e às vezes descobria que gostava delas na terceira vez. Ler jornal impresso era a mesma coisa: você virava a página e esbarrava numa reportagem que jamais teria clicado. O peso desses objetos, a lentidão deles, o fato de você não conseguir fugir deles com um gesto, tudo isso era atrito. E o atrito produzia uma coisa que hoje é rara: presença. Você estava ali, com aquilo, porque não tinha como estar em outro lugar.
Hoje tudo virou um arquivo flutuando numa tela, e o gesto de fugir custa zero. Nada te prende, então nada te atravessa. Impacto algum.
Eu sei que essa queixa é velha. Em 1903 um sociólogo alemão chamado Georg Simmel escreveu um ensaio reclamando que a cidade moderna, com seus bondes, seus jornais diários e sua eletricidade, bombardeava as pessoas com estímulos demais e estava produzindo um tipo humano blasé, incapaz de se afetar. Em 1936, Walter Benjamin, escreveu que a reprodução técnica tirava das obras a sua aura, aquela coisa de estar diante de algo único, num lugar único. Cada geração acha que a anterior vivia mais devagar e sentia mais. Provavelmente alguém em 1901 sentia falta de 1870.
Mas eu acho que dessa vez tem uma diferença, e ela é de natureza, não de grau. As tecnologias anteriores encurtaram o intervalo. O telégrafo encurtou a espera pela carta, o bonde encurtou a caminhada, o streaming encurtou o caminho até a música. A inteligência artificial não encurta o intervalo entre querer e fazer. Ela remove o fazer. Pela primeira vez a gente consegue chegar no resultado sem passar por dentro do processo, e o processo era onde a gente ficava.
O que se descobre quando trabalhar vira só prompt? Eu acho que se descobre que a descoberta morava no atrito. Que a gente passou décadas reclamando do atrito, otimizando o atrito, pagando para tirar o atrito, e nunca parou para perguntar o que ele estava fazendo enquanto atrapalhava.
Não tenho uma solução. Não vou te dizer para escrever código na mão por princípio, nem para comprar uma vitrola. Isso seria fingir que dá para voltar, e não dá. O que eu tenho é uma pergunta que passei a me fazer no fim do dia, e que talvez sirva para você também: hoje eu briguei com alguma coisa? Teve algum momento em que eu não sabia, e fiquei ali, sem saber, até saber?
Se a resposta for não por muitos dias seguidos, alguma coisa está sendo produzida sem mim. E eu ainda não decidi se isso é liberdade ou ausência.